sábado, novembro 24, 2012

A Liberdade é isto?

«Comecemos pelo princípio.

Assisti ontem [14/11], como todo o país pôde assistir, a um dos mais revoltantes abusos da chamada “liberdade de manifestação” de que há memória em Portugal.

Como todos puderam ver, ainda que alguns se hajam apressado desde logo em tentar ocultar, finda a manifestação ligada à Greve Geral para ontem convocada, ficaram em frente ao edifício do Parlamento uns milhares de pessoas, das quais algumas duas dezenas passaram cerca de DUAS HORAS a apedrejar, com pedras retiradas da calçada, uma linha de agentes da Polícia de Intervenção cuja missão era, pura e simplesmente, evitar o acesso e a vandalização do edifício público em causa – o qual, naturalmente, se encontrava vazio da sua habitual fauna.

E durante cerca de DUAS HORAS, esta linha de agentes, mesmo confrontados com uma chuva de pedras da calçada arremessadas na sua direcção, a poucos metros de distância, por pouco mais de uma dezena de grunhos selvagens, manteve–se estóica e impavidamente, sem mexer um músculo que não fossem movimentos dos respectivos escudos para não serem atingidos.

E se é verdade que eram pouco mais do que a dita dezena os filhos da puta que arremessavam as pedras (todos de cara devidamente tapada, numa demonstração cabal da sua coragem, da sua convicção nos princípios (?) assim defendidos (?) e, enfim, do correspondente tamanho daquilo que balança entre as suas pernas), a verdade é que por trás deles, estava uma mole humana (diria que uns dois milhares de pessoas, estimativa minha ‘por baixo’) que amiúde ia gritando ou aplaudindo quando, em vez de pedras, eram arremessados petardos que rebentavam junto aos pés dos mesmos polícias.

Ninguém arredou pé. Ninguém se chegou junto daquele bando de atrasados mentais e os obrigou a parar com aquilo, ou se preocupou em tentar fazer–lhes ver que aquilo já não tinha nada a ver com aquilo para que fora convocado o protesto do dia de ontem. Quanto mais não fosse pura e simplesmente virando as costas e indo embora. Ou seja, concluo eu, toda aquela mole humana (algumas com crianças ao colo!) que ali ficou durante aquelas DUAS HORAS foi conivente, pelo menos por omissão (e não é pouco), com o que se passava.

Tudo isto durante quase DUAS HORAS. Eu vi. Toda a gente pôde ver.

Ao fim de quase duas horas, e numa altura em que o meu estômago quase não aguentava mais de nojo), um agente policial com um megafone vem à escadaria, e avisa que “dentro de 5 minutos” a policia iria intervir, e que era melhor as pessoas saírem dali – como se fosse mesmo preciso dizê–lo.

A resposta foi uma chuva de pedras da calçada sobre o dito agente.

Cinco minutos depois, a polícia finalmente interveio, e, evidentemente, como era previsível, e havia sido avisado, fez o que tinha a fazer.

Pelo caminho, os selvagens em fuga queimaram o que lhes ia aparecendo, partiram montras, destruíram caixas multibanco, e arrancaram semáforos e sinais de trânsito.

Tudo isto foi o que eu vi, e ninguém pode por isso dizer–me que não foi assim.

Pois bem, ligo hoje [15/11] o Facebook e que vejo eu?

Nada.

Isso mesmo: nada.

Nenhum dos habituais bloguistas ou dos habitués facebookianos, tão prontos a comentar e a postar sobre os mais variados assuntos, teve ainda tempo de martelar em meia dúzia de teclas.

O que se viu, isso foi a imediata reacção de alguns “populares” contra a polícia, e a subsequente romaria para o Tribunal de Monsanto, em acompanhamento dos pobres “jovens” detidos na sequência de tudo isto, com muitos aplausos pelo meio aos oprimidos defensores da liberdade e queixas sobre a intervenção policial e os “direitos dos detidos”.

Pois bem, se estão todos muito ocupados, eu tenho aqui 5 minutos para falar no assunto, e dizer só duas coisas.

A primeira é que, a meu ver, tão selvagens foram a cerca de dezena de animais que durante quase duas horas em contínuo esventraram um passeio para apedrejar os agentes que ali estavam imóveis, como as centenas ou milhares que estavam por trás deles a aplaudi–los. É que bastava, como disse, dar meia volta e ir embora. Mas não. Ficaram.

Por isso, pouco me importa se o fizeram só porque iam a passar pelo local a caminho do supermercado e tenham resolvido ficar ali a ver o espectáculo. Pouco me importa que, depois de estarem duas horas a ver o circo com uma criancinha ao colo, depois as criancinhas “ficaram muito traumatizadas”. Se no final foram varridos, foram muito bem, e, a todos, só se perderam as que caíram ao lado.

A segunda, para elogiar e saudar, aberta e totalmente o comportamento da Polícia durante todo este acontecimento. Foi de um profissionalismo e de uma correcção absolutamente exemplares, revelando um estoicismo e uma ‘paciência’ que eu, garanto, não teria tido nem teria conseguido transmitir. Para eles, TODA a minha solidariedade e TODO o meu apoio.

E é só. Se alguém se sentir “incomodado” na sua “sensibilidade revolucionária” com alguma das minhas palavras, tem bom remédio: há ali em cima um botãozinho para me remover do seu feed de notícias*, e está lá para ser utilizado.

Cumprimentos a todos.»

*Este texto foi publicado primeiro no facebook

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